Eram de longe.
Do mar traziam
o que é do mar: doçura
(Eugênio de Andrade)
Longe, tão de longe que não se pode entender
Onde está sua casa?
Muito, muito além...
Não podes ver. Nem que quisesses, não poderias ir
Ela não existe mais...
Perdeu-se na cantiga doce do mar
Perdeu-se, nos embalos salgados do vento
Sobraram-me os arrepios
E a doçura, a leve doçura daqueles que contemplam uma espécie de segredo
E como vives sem casa?
Não há resposta.
Ou, minto...
Ela existe, uma por dia.
Por vezes, na ousadia dos que amam o fogo na água.
Ou no sorriso de uma travessura
Ou no ato de jogar-se, sem hesitação, aos braços do ar
Muitas vezes, na melancolia dos órfãos
Na doçura dolorida de algo que se perdeu
Algo, que como almas bebês, não alcançamos com os nossos dedos
Ainda que se veja, lá, perto e inalcançavel
Como piada cruel.
Vim de longe, vivo longe...
Mais longe do que gostarias de saber
Muito, muito mais longe do que possas perceber com realidade.
Realidade?
Há. Apenas um outro tipo de piada.
Mas nem tudo são lamentações.
Queria, mesmo, era deixá-las
Como uma roupa que não serve mais
Daquelas que a gente olha de fora e nem sabe por que usou por tanto tempo.
O mar me deu a doçura azul
E salgada. Um tipo de pó entranhado
Para que não possa esquecer...
Doce e sal, apenas parte de uma mesma coisa.
Longe, mesmo, muito longe.
Perdida como um lar.
Mas sempre, sempre presente como um acalanto.
Agora guardada no único lugar que poderia estar.
O lugar secreto dos sem lar.
Que são todos, todos os espaços onde ele se deixa sentir
Doce
Como o mar da minha casa
Doce, mesmo, muito...
Como o melhor de todos os acalantos
Justamente por que agora ele mora em mim.
Onde é minha casa.