Sempre o mestre

Sou um evadido.
Logo que nasci
Fecharam-me em mim,
Ah, mas eu fugi.

Se a gente se cansa
Do mesmo lugar,
Do mesmo ser
Por que não se cansar?

Minha alma procura-me
Mas eu ando a monte,
Oxalá que ela
Nunca me encontre.

Ser um é cadeia,
Ser eu é não ser.
Viverei fugindo
Mas vivo a valer.

A saudar os dias, mais certo que um oráculo.

"e é só ficar doente vc foge direto para o passado"



Por que a gente pode tirar a criança dos anos 80, das lendas, da angústia dos amores pelo samba serem infiéis.

Mas vc nunca pode tirar os anos 80 da criança. Com todas as suas referências internas e truncadas que fazem tanto sentido quanto o verde élfico. Mas normalmente só para essa que vos escreve.

PS: É, estou doente.

Sobre promessas internas nem sempre cumpridas e sobre a falta de necessidade de fazê-las.

Eu nunca vou aprender a escrever. Não assim, como quem enxerga e respira. A nova gramática fez isso. Conversávamos, esses dias sobre essa espécie de destino triste. Sempre erraremos, uma hora ou outra. Como se o costume não ultrapassasse as primeiras impressões.
As sensações do início.
Aquelas, do mesmo tipo em que se baseiam as impressões que não sabemos direito de onde vem. Elas não tem explicação, mas, mesmo assim, estão ali, silenciosas. E fortes como uma murada. Invisível. Não tem nem sentido bater nelas.
Coisas que se carregam sem ver.

Talvez seja por isso que eu gosto tanto de olhar as pessoas de quem eu gosto muito. A primeira impressão fica ali, difusa, como borboleta, todos os dias, todas as horas. A fazer o coração dar piparotes no silêncio.
O silencio que a gente confia a uns poucos. Na tentativa difusa de que todas as impressões sejam primeiras. E únicas. Como pequenos cristais que amarramos no fio da experiência.
Em verdade, ninguém precisa de mim.
Para nada.
Mas mesmo assim há com quem partilhar o riso e um pouco de dor.
A respiração silente do sono.
É bom saber que isso não é mesmo necessário, mas uma escolha.
Dá medo, pois escolhas são filhas do tempo
E o tempo é um senhor estranho.
Mas tudo que realmente existe é a impressão do agora.
Eterno em olhos que brilham.

Nada mais importa.
No fim somos seres de estranhas manias

quem será o visitante 5555?

ah, números...

um fim de ano e o guardião cego

É extremamente egoista, mas... para mim, ano novo, mesmo é aquele em que a gente faz aniversário. Então cada um tem um balanço a fazer como o fim de um ciclo.
Ás vezes, é muito fácil. Outras é melancólico. Normalmente, a gente nem sabe explicar o que vem primeiro.
Foi num outro fim de ano, esse, o convencional, que o guardião cego apareceu para mim. Uma história, pedindo para ser contada.

Mas é uma história que dói.
Como olhar um espelho. Daqueles, das lendas, que nos mostram a verdade.
Pois bem, a resolução de ano novo é pegar capa e espada... e enfrentar a história que precisa ser contada. Com seu espelho negro, sua luz difusa. Então, é um aviso. Duas séries caminharão por aqui. E, claro, eu não viveria sem os inúteis posts diarinho. =D
Mas é irrealismo fantástico.
Então se os leitores partirem eu vou entender.

visão

Existem coisas que não existem para ser vistas.
Não é como se fossem invisíveis
ou herméticas e invioláveis.
Apenas permanecem, como se não estivessem
Inalcançáveis
Incompreendidas
Mas, no relance, as vezes aparecem
E deixam para tras pessoas com cara de bobas
Desassossego, mestre, era isso?

Não sei se o melhor é ignorar ou conhecer.
Fica-se entre o medo, o torpor e os sucedâneos.
E como nos ensinaram a ser bons, mantemos o desassossego abaixo do tapete invisível
Mais turvo do que o que não se pode ver.

Baseado em poema real.

Eram de longe.
Do mar traziam
o que é do mar: doçura
(Eugênio de Andrade)


Longe, tão de longe que não se pode entender
Onde está sua casa?
Muito, muito além...
Não podes ver. Nem que quisesses, não poderias ir
Ela não existe mais...
Perdeu-se na cantiga doce do mar
Perdeu-se, nos embalos salgados do vento
Sobraram-me os arrepios
E a doçura, a leve doçura daqueles que contemplam uma espécie de segredo

E como vives sem casa?
Não há resposta.
Ou, minto...
Ela existe, uma por dia.
Por vezes, na ousadia dos que amam o fogo na água.
Ou no sorriso de uma travessura
Ou no ato de jogar-se, sem hesitação, aos braços do ar
Muitas vezes, na melancolia dos órfãos
Na doçura dolorida de algo que se perdeu
Algo, que como almas bebês, não alcançamos com os nossos dedos
Ainda que se veja, lá, perto e inalcançavel
Como piada cruel.

Vim de longe, vivo longe...
Mais longe do que gostarias de saber
Muito, muito mais longe do que possas perceber com realidade.
Realidade?
Há. Apenas um outro tipo de piada.

Mas nem tudo são lamentações.
Queria, mesmo, era deixá-las
Como uma roupa que não serve mais
Daquelas que a gente olha de fora e nem sabe por que usou por tanto tempo.

O mar me deu a doçura azul
E salgada. Um tipo de pó entranhado
Para que não possa esquecer...
Doce e sal, apenas parte de uma mesma coisa.
Longe, mesmo, muito longe.
Perdida como um lar.
Mas sempre, sempre presente como um acalanto.
Agora guardada no único lugar que poderia estar.
O lugar secreto dos sem lar.
Que são todos, todos os espaços onde ele se deixa sentir
Doce
Como o mar da minha casa
Doce, mesmo, muito...
Como o melhor de todos os acalantos
Justamente por que agora ele mora em mim.
Onde é minha casa.

Hey, é aqui que é aqui? - update!

Misteriosamente o meu layout saiu do ar.
Não tão misteriosamente assim, eu estou com preguiça de recuperá-lo.
Portanto...
Fica assim, por hora.
Agora faltam os links.
Fds, me aguarde.

flerte

Eles se encaram.

Olhar parado - como serpente.
O que causa um certo desconforto - de onde veio essa analogia?
"Tremulous"
Os sentidos, todos, explodem
Mas como predadores que são, permanecem parados.
O primeiro passo pode separar predador e presa.
"Floating, falling, sweet intoxication"
De uma forma ou de outra, estão perto um do outro...
Em busca do impulso mais profundo
E potencialmente destruidor
Quase tão certo como o fogo que queima.
Queima e cessa tudo, em suas cinzas.
Nada, nada mesmo sobrará.
E nós não somos acostumados.
O olhar continua parado.
Abandona-te
Seja por um minuto, ou um milhão de anos.
Não importa, verdadeiramente, de onde vem o veneno.

Nostalgia




Eu fui uma criança sui generis. Mas, talvez, olhando de perto, dê para perceber que cada um independentemente do que passou teve uma infancia única e portanto, sui generis tb.

Uma parte da minha infância, entretanto, se foi - e isso não é retórica - quando partimos definitivamente da Bahia.
Todos os discos e livros, literalmente todos - bem como alguns brinquedos e gibis, perderam-se no caminho.
E o brinquedo preferido, que tinha ficado, foi doado por meu pai. Por muito tempo lamentei não poder ter dado adeus a ele. O único, e pequeno espaço que eu ocupava de longe, se foi sem que eu pudesse opinar.
O passado é engraçado, quando se olha de perto.
Toda a cultura que marcou a infância que eu gosto de acreditar sui generis, permanece hj na minha lembrança. E a gente que estuda história sabe q a memória é um problema. =D
Algumas coisas dá para lamentar mais, nunca recuperar. Uma delas é um LP com uma desconhecida história do Jorge Amado. "O gato malhado e a andorinha sinhá". Ouvia muito. Tanto que até gastei. Gostava, particularmente, da parte em que a andorinha chama o gato de "feio". Era sonoro. Era magoado o tom que ele respondia. Mas me fazia rir, junto com a andorinha.

Hj, pesquisando, descobri que uma biblioteca em Minas guarda o LP da minha infância. Que eu até desisti de achar no sebo.
Há sempre o livro, se pode dizer. E eu o busco, verdadeiramente.
Mas não é a mesma coisa.
Hoje eu dificilmente riria, ao ouvir o "feio". Provavelmente também, entendesse que o gato malhado é uma história muito mais triste do que alegre.
Por isso, gostei tanto de achar o vídeo. Passado, lembrança, melancolia.
Os pequenos tijolinhos que nos constroem. Com valores completamente ilógicos.

Isso que dá chegar perto do aniversário. O passado vai invadindo, aos borbotões.
Imagina quando eu chegar aos 60?

O rei e a rainha assistiram a luta dos peões

(sob a inspiração de "O tesouro de Sierra Madre")

Por vezes, decerto talvez por muitas vezes é fácil admitir que somos diminutos. Para nós mesmos, de preferência, no escuro e com a porta fechada. Não é tão fácil - para alguns, acredito, é mesmo impossível - fazê-lo em público.
Em público, o que é fácil, e consiste até em uma espécie de passatempo da manada humana é classificar e definir os outros. Sempre nos tendo como horizonte positivo.
Não há nada que não se possa saber, desse jeito.
Mas e as verdades?
O que elas são mesmo?

Para um obscuro povo do deserto, essa divagação toda pode ser resumida com o exemplo dos dois espelhos. Conta-se, que à todas as pessoas foi dado dois espelhos. Um, como uma porta dos porões empoeirados da alma. Outro, como uma janela para seus pontos brilhantes.
O problema é que a gente se acostuma a olhar só um.

Experiencia, nesse sentido, seria aprender a andar com os dois. Como parte de uma coisa só. Sem juízo, nem medos de represárias, nem sentido eterno de vítima.

Experiência, Deuses...
Acho que tal coisa foi escondida bem no âmago, muito longe, encalacrada na montanha que nos leva a qualquer país imaginário... ou mundo paralelo.
Dá para saber o que fazer com isso?

Para mim, só alimenta a nostalgia do sol vermelho... Casa, a do coração. Mas uma casa sem portas, janelas ou realidades.

Quem...

Alma romântica (no sentido literário da palavra) simbolista por escolha, sarcástica por natureza, mal humorada crônica e autista por opção. Basicamente uma mala! Mas pelo menos sou sincera...ou tento.