aleatória reflexão.

As vezes eu penso que o mar é salgado para nos lembrar do peso de todas as lágrimas que habitam o nosso coração e não podem ser colocadas para fora, por medo, por indefinição, ou por que, em alguns casos, nada conseguiria esvaziar a contento.

Talvez por isso algumas culturas vissem o mar como um grande útero, de onde se podia renascer.
O sal do mar leva todas as lágrimas.
É isso que o mantém salgado.

Saudades de mergulhar.

Confissão

Todo mundo tem segredos. Do tipo que se guarda entre duas pessoas: nós e a gente mesmo, ou vice-versa.
Quando eu era criança... pq pessoas como eu nunca podem usar a palavra "pequena", criei uma caixa, onde escrevia os segredos em papel diminuto, com menor letra ainda. De quando em quando tirava um de lá, para ler sussurando, a noite, olhando as estrelas. Um dia, meu amigo vento levou todos os papéis embora...

É um pouco a mesma coisa que a madrugada barulhenta dos gatos me trouxe.
Um segredo...

Eu sei voar! prontofalei...
É sério, viu? eu sei voar.
Nada muito alto, ou longe. Apenas o suficiente para sair por alguns segundos, eternos segundos... do lugar. Piruetas, sabe?

Não é como se desse para sair atravessando o céu, como o super-man.
Eu não sou do tipo exibicionista.
De fato, é coisa dos tímidos ter uma caixa de segredos. Pois mesmo quando há a confissão é como uma fresta, a espiar. Existe algo intocado, guardado. E permanece. Pertence aos sussuros e às madrugadas esquecidas.

Mas ando sempre a errar o chão. Aprendi a voar, nem que seja um pouquinho.

Ímpar?

É bem simples.
Quase como um pequeno tremor, daqueles, de espinha.
Em verdade, creio que os outros nada enxergam
Não se a gente não contar.
E tem gente que conta.
Outros, acreditam que falar daquilo que muito vale pode fazer com que algo ruim aconteça

E o simples, como o arrepio, o toque, a luz...
Passa a ocupar o espaço do ar,
Que está em toda a parte
Mesmo que não se possa ver.
Talvez, seja mesmo por isso...
Por sua invisibilidade.
Pelo impalpável palpável
Pela coleção de paradoxos.

Tem gente que cria pequenos potes, como se eles pudessem ser enchidos desse ar.
Essa é uma ideia tentadora, acredito.
Estamos sempre a guardar coisas.
Em algum lugar disseram-nos que isso devia ser feito.

Essa incompatibilidade faz com que o simples assunte um tanto.
Ou arranhe um tanto
Esfomeie um tanto
Ele não pode ser guardado, nem controlado.
Não há planos para ele.
Vem e vai, como o mar, aleatório.
Afoga, ou salga a pele, ou marca, ou embaralha.
A seu tempo.

Deve ser por isso que inventaram a palavra saudade.
Ela funciona melhor com o que é simples.
E eternamente imprevisível.

Conto de Blues

Muito antes de prometer a si mesma trancar-se na torre do cinzento mundo distante, já vivia em uma torre. Uma alta de quinze andares, que só servia para aumentar seu mundo e uma baixa, de apenas 4, que serviu para isolar, sempre e mais. Quase tão alta quanto o céu.
Mas não há lamentos, quando a solidão ensina. Havia as letras, a re-criar tudo que não se vivia. A ensinar, pacientemente, de maneira indolor e que mantinha o isolamento.
Por vezes, havia textos subversivos, como quando ela descobriu que os " inferiores" eram constantemente ignorados. E havia um mundo tão grande entre eles! Os andarilhos, os garis, as faxineiras, quase assustados, com um sorriso ou um bom dia.
E era a solidão que havia ensinado a ela a rir por dentro.
" Sua louca"! Ouvia como eco. Não fazia mesmo diferença, pois era divertido explorar outro tipo de torre. Ela não era tão sábia. Disposta apenas a falar com os enjaulados.
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Sabe aqueles ódios que remexem entranhas? Irracionais? Aqueles, que fazem a gente entender como o ódio e a paixão são irmãos?
Um dos primeiros que eu alimentei foi pela ... gaita de boca. Meu irmão tinha um punhado delas, mas não sabia tocar. E ele tocava.
Eu realmente tinha raiva daquilo.
Engraçado, é que eu não lembro direito quando tal ódio passou.
Só consigo me lembrar de como eu achei bonito quando o menino - blues apareceu tocando, certa vez. Mas o ódio tinha passado muito tempo antes disso.
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Pois não era sempre que dava coragem de bater na porta das torres alheias, essa é a verdade. Mas sempre tem a música. E o andarilho que ficava sempre a duas quadras de onde ela sempre devia estar. Às vezes, sobrava um tempo e ela se mantinha lá, olhando de longe, como fazem os desconfiados.
Era a música, tão bonita.
Muitas vezes, ela tinha que correr mais depois. Em outras, tinha ímpetos de sentar no chão e fechar os olhos.
Não falava nada.
O dinheiro era pouco, muito pouco. Mas quando as moedas apareciam, por vezes, acabavam na mão do andarilho.
Ele também não falava nada.
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Uma vez, pouco tempo depois de conhecer o menino - blues, estávamos, eu - aprendendo a beber e a me livrar de todos os ódios - no fim, os irracionais são ilusões narcisistas - e uma enorme caneca de vinho desconhecida. (Não sei até hoje de onde ela veio)
O pluto estava lá, mas eu não sei se chamava ele de pluto. Ele disse: eu odeio essa música. A gente riu. Efeito do Baco ou não, uma coisa que o pluto sabe é odiar de uma maneira racional até o que parece irracional.
Eu disse o que acreditava na época. Batendo nas veias do braço, para dar mais impacto dramático: (Deuses, era tudo efeito do álcool, ou era apenas eu e o lirismo lusitano?) É blues, pluto. Ele toca aqui, como a vida.
E eu não lembro direito, mas acredito que combinaria com o pluto dizer algo como eu odeio a vida, ou largue mão de ser emo... =D
O legal é que foi aquele dia em que vimos que apesar de tudo, algo nos unia. Bredinnis, diriam os darkovanos.
Sacudimos os cabelos como num show de metal. Mas a verdade é que só eu tenho cabelo comprido.
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Um dia o andarilho falou. Ela quase se assustou quando ele disse: Muita gente vem aqui, mas você escuta a gaita de uma maneira diferente.
Ela disse: É blues. Eu adoro.
O andarilho sorriu e piscou.
Acabou conversando com ela muitas vezes. Uma vez agradeceu. Pelo modo com o que parecia, poucos eram os que confiavam o suficiente para conversar. Ela sorriu. Ele disse algo impressionante:
É o Blues. Ele toca em seu coração.
Ela foi embora, sem falar. Não acreditava que tivesse um.
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Ninguém chegou a se embebedar aquele dia. Nem mesmo a ficar tonto. Mas gritamos: Bruxas... como se fosse uma coisa só. Tiramos milhares de fotos estranhas. E rimos. E eu fiquei um tempão falando que só eu tinha cabelo comprido, para bengar direito. Podia falar qualquer coisa e rir de qualquer coisa. Muitas vezes foi assim. E sempre é.
Eram irmãos se encontrando. Por mais que pareça bizarro para quem não estava lá; Verdade seja dita, ser ou não ser bizarro nunca foi exatamente algo que tirou o nosso sono. Afinal, se fosse, não cantaríamos sociedade alternativa em coro. De cima de uma mesa. Opa. Figura retórica, claro, quem disse que a gente é louco?
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Um dia o andarilho disse para ela que ia embora. Procurar um lugar melhor, ou algo do tipo. E agradeceu de novo. E disse que ela ia ouvir o blues do coração. Que alguns, como ele, ouviam o do mundo inteiro. Mas que cada um tinha a sua música. E que as vezes, dava para ouvir de um, ou de outro, ou dos importantes.
Ela ficou com medo que ele dissesse que queria ouvir a " musica" do coração dela ou algo do tipo. Pareceria cantada barata ou assustadora. Ou as duas coisas.
Ele não disse. Mas para garantir, ela disse que nem acreditava que tinha coração. Que tinha cérebro. E que era suficiente.
Ele disse que dependia de como a gente queria ser lembrado. Ela riu. Disse que isso só servia para a música. E desejou sorte ao andarilho.
Eles se despediram, de longe. Mas ela apertou a mão do homem. E nunca mais o viu.
Até que ele virasse uma história.
Talvez só desse para falar disso, quando desse para ouvir, que todo coração tem um blues. As vezes, a gente aprende a ouvir. Até mesmo a dividir. As vezes, como acontecia com o andarilho e como acredito secretamente que acontece com o menino blues, se ouve a música do mundo inteiro. Em outras, é como abrir uma torre.
É um tipo de música que habita as veias, como eu disse aquele dia, ainda sem saber direito o que significava.

Quem...

Alma romântica (no sentido literário da palavra) simbolista por escolha, sarcástica por natureza, mal humorada crônica e autista por opção. Basicamente uma mala! Mas pelo menos sou sincera...ou tento.