"Porque ser diferente, no fim, é o que todos querem"
Foi o que ela disse mordiscando o lábio inferior junto com o bater característico dos dedos - unhas longas, de cores diferentes, sobre a mesa de um bar qualquer.
- É uma mentira, sabes? No fundo, apenas uma farsa. Se sentem tão únicos, os diferentes - e ela falava aquilo de um jeito tão perverso, que fazia a minha garganta secar - Só esperando por alguém que os entenda, e os complete, na sua diferença, como um bizarro gêmeo siamês, siamês na diferença!
Ela jogou a cabeça para trás ao mesmo tempo em que as unhas marcaram - muito de leve - o meu ombro. Estremeci. Acho que foi o momento em que senti maior desejo.
- Eu, não, ela disse . Eu queria ser igual. É isso doi, pq é estranho ser igual quando todo mundo deseja o diferente.
E ela sorriu e eu só via as covinhas se abrirem
O sorriso não tocou os olhos - e eu, só conseguia pensar em me afogar neles.
- é cansativo construir a diferença. Ser sempre único e sozinho, um camaleão ao contrário! Não é bizarro?
Ria, agora, mas os olhos estavam tão sérios.
Me perdi, focado que estava em suas mãos, os dedos finos e longos. Tentava imaginar como seria sentí-los sobre a minha pele, nem que fosse de leve.
Tal exercício me deu arrepios, por todo o corpo.
Não sei se ela notou.
Continuava a falar.
- Penso em uma igual dade doída, de tão intensa. Todos, juntos, tão juntos... apertou com força uma mão na outra. Como se tudo fizesse parte, uma coisa só.
- O mundo todo pulsando, como um enorme coração. E eu queria poder ouvir.
Tão te todos, e de ninguém, que nem percebeu o que eu queria tomar dela.
Ali, enquanto desfilava seus sonhos
algo um pouco diferente
Marcadores: conto
Just...
Eu fico aqui, ouvindo a chuva, quando não existem mais raios. Só a água, incessante, calma, fria.
Madrugada.
As nuvens esconderam a lua.
E as estrelas.
E o melhor silencio é este... quebrado por um ruído singelo como o das gotas.
Abro a janela.
É o último andar, e por um momento, tento esquecer de todo o resto.
É muito frio
E venta.
Mas é leve, tão leve. Pequeninos beijos gelados
Agora está certo.
Pois realmente chove em todo lugar.
Indistintamente.
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Sobre desejo...
Antes de começar, dois adendos:
- Resolvi editar apenas 90% do que a Lorelay manda. Pq acho divertido quando ela mistura algumas coisas e pq vai dar para deixar abreviaturas estranhas como srsly, LOL, essas coisas. Antes, eu procurava o significado para depois colocar “no ar”. Trato nosso, de qualquer jeito. Não me imaginem como uma censora, por favor.
- Esqueci. Tinha a ver com o fato de que nem sempre eu preciso de metáforas e que não é tão difícil escrever sobre algumas coisas... Talvez seja só um espírito competitivo aflorando, mas, não, não me analisem, ok?
Bem, lá vai: No “período temático” vem ao ar um texto descritivo, comentado sobre algo que normalmente a gente não costuma escrever. Desafio duplo, uma escolhe um, outra escolhe outro, Não sei se isso dura, só sei que não dá para escrever com personagens, por definição.
Agora, lá vai...
Fiquei na dúvida em classificar o desejo. Uma espécie de calor? Uma espécie de sede? Uma espécie de fome? A primeira é óbvia. Metáfora batida, por assim dizer. Entre a sede e a fome, outra dúvida permanece. A sede é mais rascante, mais premente, mais exigente, e, portanto, está mais a fim de um sentido (ou sentimento) como o desejo. Na segunda, mesmo que agora muita gente se revolte, a gente pode somar de maneira mais convincente outra coisa que eu acho essencial ao desejo: o controle (tá, ao menos para mim, é mais fácil controlar a fome do que a sede.)
E o que sabes de desejo, se falas em controle?
Exatamente isso. É como ser sugado, para um lugar escuro, em que tudo se perde. Não em um mal sentido, veja bem. Quando o desejo assalta, ele tem uma existência completa e exigente sobre a pessoa a quem toma. Pois bem, voltemos ao escuro – ou claro, que seja. Aonde quer que a gente seja levado, há só uma coisa, desejo, puro e simples, vontade desenfreada e sem raciocínio. Busca. Desejar é como respirar quando se afoga, luta de instintos. Doce e acre ao mesmo tempo. Por que aí vem a diferença básica, onde cabe o controle.Diferente da necessidade de respirar, para o desejo vem antes uma vontade, uma projeção, um sonho.
E lá, no momento da queda, como numa montanha russa, no momento de perder-se, sempre se pode respirar e escolher o rumo. Desejar não é como respirar, e por mais forte que seja a fome, como advém de um sonho, sempre se pode escolher o caminho para alcança-lo.
E não adianta citar Blake: "Aqueles que reprimem o desejo assim o fazem porque o seu desejo é fraco o suficiente para ser reprimido".
Quanto mais forte o desejo, mais existe o controle.
É o que faz afogar-se e aplacar a sede uma coisa tão intensa.

