Hoje eu pude entender. Será que se pode culpar o pobre do aquário? Convivo com todos, mas consigo amar apenas os sedentos. Os buscadores, as esponjas de vida. Mas não de qualquer maneira, jeito ou tipo. As que sabem que querem caminhar. De maneira nenhuma adianta ser uma esponja estática. Ou passiva, a repetir o que eu digo – não, não, não. De vida, não da vida alheia. A estes, não sobra nenhuma criatividade.
No português inteiro, só consigo olhar para quem tem os bolsos cheios de interrogação e os ouvidos largos.
Adoraria caminhar ao lado de estranha figura...
Mas estes, ah, estes, eles nunca querem companhia...
Eu entendo, claro, ao menos por definição. Afinal, estou a ouvir desde sempre que dois apagam as interrogações, elas só embalam as pessoas sozinhas. Meu amado dizia que só a solidão o transformaria em algo grande. E ele o foi de fato, o maior de todos. Uma parte de mim acha, entretanto, que há um segredo a seu respeito e a sua solidão. Talvez eu apenas espelhe o que penso no grande gênio e isso é de orgulho imperdoável.
Verdade ou não, sabendo ou não do que se passava com o querido Fernando, não deixo de perceber, neste exato momento, e por um motivo banal – e não o são todos os motivos que nos fazem iluminar a nós mesmos? – o que, verdadeiramente guia os meus impulsos tão contrários a tudo que rodeia a todos nós: uma buscadora que só ama os igualmente sedentos. E nem se preocupa em acabar com a água do caminho, porque a sabe infinita.
Mas, ao mesmo tempo, tão orgulhosa que não aceita nada diferente. Afinal, não quer deixar nunca de carregar as próprias interrogações, crescentes, ilimitadas e aos olhos de muitos – completamente dispensáveis.
Inocente má, diz a minha amiga que anda mudinha.
Talvez ela esteja certa.

