Sexta-feira,22.2.08
a caixa

- Ora, ora, ora... Com que então apareces novamente?

Era uma senhora, cabelos curtos e grisalhos. Vestida como uma ministra daqueles países europeus. Ereta. Levemente desdenhosa.

Não se virou. Antes encarou o espelho, para devolver, como quem não quer nada, um fio de cabelo no lugar. As unhas, delicadamente manicuradas, fecharam-se sobre as palmas, por um breve momento.

Foi encarando o espelho – sem ver o reflexo do interlocutor, mas, provavelmente vista por ele, que manteve a conversa:

- Não preciso de ti, vai-te. Balançava suavemente as mãos.

- Aprendi que tudo isso é uma bobagem

- Vês? Estou melhor agora, observas... Os olhos arregalaram-se por um momento.

- Não quero o que tens. Não aspiro, nem anseio por nada que não seja minha bela paz.

- Tudo tão tolo... E tens o disparate de aparecer na minha frente desta maneira, depois de tanto tempo, com os mesmos olhos suplicantes, parados... E tristes – a última palavra foi dita quase como um sussurro.

A senhora tomou fôlego, para continuar, com voz doce... Mas não se virou... A mobilidade era uma espécie de escudo útil e desejado.

- Perceba, os tempos são outros... Não é apenas comigo, ou por que escolhi a mais tempo do que gosto de lembrar, de que não mais o receberia... Ninguém mais deseja o que carregas e chego mesmo a duvidar que em algum momento de sua longa existência, alguém, tenha, remotamente, festejado a sua chegada. O mundo é rápido, hoje e tudo arrefece... Mas mesmo antes...

Interrompeu-se.

Calou-se e virou o corpo, muito devagar.

Estivera falando sozinha.

Caminhou então para o centro daquela sala, com os sapatos produzindo ecos no vazio.

Havia uma pequena caixa, bem no centro, ao chão.

A mulher a alisou com a mão...

Teria pensado que era uma caixa de pandora? Ou confundia-se, pois afinal, tudo estava ali. Tudo o que havia dito que não queria? E nada, verdadeiramente nada tinha entregado em troca.

Sabe-se com certeza que o primeiro pensamento foi que não merecia.

E o segundo, acredita-se que foi justamente atirar para longe a tal caixa como se nada tivesse ocorrido.

Mas ela abriu. E de lá saíram uma porção de estrelas minúsculas, quase uma chuva de lantejoulas.

Nada mudara, mas tudo ficou diferente.

E a senhora voltou por onde tinha vindo, mas com passos menos resolutos.

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J. escreveu...
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Terça-feira,12.2.08
Este, tem dono e não título.

E uma voz se levantou, no meio do cotidiano turbilhionamente plácido...


Eu não quero abrir mão de ser quem eu sou

Susto

Silêncio

Ele disse isso mesmo?

Burburinhos abafados

Soluços e lamentações

Ele disse, ele disse?

Ele disse mesmo!

A platéia, já não tão calorosa, contemporiza.

Bem... É claro... Mas... Pense, a convivência... As concessões... O perigo de virar eremita...

Ele encara firmemente a platéia... Viraram todos platéia naquele exato momento. Naquele segundo absurdo em que as coisas mudam, irremediavelmente. Aquele segundo em que na maioria das vezes a gente perde. Mas ele não perdeu, enxergou com tal clareza q podia ter desenhado, ou agarrado, se um segundo fosse uma coisa sólida.

As concessões não tem a ver com o q se realmente é, ou estaria por aqui, agarrando-me na primeira pessoa que encontrasse. A seguiria, como um mapa. Sem contestar, sem olhar para os lados. E repetiria, como vocês todos. É seguro, é social, é necessário...

Mas seria uma grande mentira.

Foi como se todos lhe virassem as costas. Não havia nem pares nem platéia... apenas ouvidos moucos a sussurrar.

Mas, no fundo, bem no fundo, havia aquele olhar mágico. Meio de canto. Que brilhou quando ouviu o que era dito.

E que caminharia junto com ele.

E lhe dava forças, mesmo sem saber.

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J. escreveu...
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