o conto do estranho.

Ele estava lá

Parado, quase estático.

A penumbra e o barulho do bar fariam com que passassem despercebidos.

Ali, aonde todos iam para conversar.

Para beber.

Para esconder sua solidão com muito cuidado.

Para jogar-se, de um lado para outro, tentando eliminá-la.

Ali, onde a solidão parecia quase uma intrusa, pois era um bar onde se via, onde se ria, onde se era visto.

Pois era justamente ali, que a solidão dele era quase um troféu.

A fumaça do ambiente rodopiava em torno dele. Era quase uma aura, uma mágica.

Ele não fumava.

Afinal, seria uma quebra na solidão, não seria?

Mas ela ia, atraída para lá, da mesma maneira. Era quase uma homenagem... Estou aqui, olhe para mim, olhe para mim...

Pois é, eu não disse.

Os olhos eram parados. Fitavam um horizonte longínquo e secreto

Fitavam, sem ver.

Os lábios, um risco. Nem felizes, nem tristes. Ali. Apenas. Havia mais?

Os braços descansavam na mesa.

Um único copo ia e vinha, com cadência, como uma máquina.

Era tão orgulhoso em sua solidão, que o burburinho parecia não lhe atingir.

Parecia nem estar lá.

Devia estar ouvindo uma espécie de bolero dentro de si.

Muito provavelmente via o que não podia ser visto.

Nem a fumaça, que me faria chorar, conseguia atingi-lo.

Silencioso, ele partiu. Talvez perseguindo o que via. Mas, possivelmente, o que perseguia já estava com ele. Gosto de pensar assim.

Quando ele se foi, fiquei a pensar que a solidão era muito mais de todos os outros do que do estranho. Ele era o único a não fugir, envergonhar-se, nem ao menos ignorar sua existência.





Este vem direto de um guardanapo, no bar.... :)

across the universe

Até existia outro texto... Mas eu acabei de ver o filme e não dava para falar de outra coisa. Lembro que esse foi um dos primeiros filmes que o trailer me deixou com ar de ansiedade.
Até falava com um ex-amor e disse: Temos que ver isso juntos!
Pois bem, essa parte era ilusão... whatever... vi o filme com a máfia. Melhor companhia não podia existir.
O meu tipo de musical. Se tivesse que definir chamaria de filme jujuba, pq é doce, mas tem aquele ácido... aquele que as vezes faz seus olhos se encherem d'água.
Eu li as críticas, dizendo que o filme é longo e talz. Mas acho que qualquer fã dos Beatles aprovaria. Um monte se cenas memoráveis existem lá.
Enfim, valeu a espera.
Vale a sensação de vazio que dá depois.
E ainda ganhei um bônus, cheio de reflexões da saudades do que não se é. O sentido de revolução evaporou nos 60 e a gente podia ter ido para algum lugar... Mas não. Não consigo definir aonde fomos. E eu fico com a saudades do que não vivi. Acho q os anos 60 dão esse efeito em muita gente.

Não resisti em linkar um dos trechos q achei mais lindo.

Aproveito e digo: assistam, assistam.

O ano do desejo

Por que o desejo é o que torna o irreal possível, só por 365 dias, minha companhia vai ser uma menininha de olhos vidrados e coração aos pulos.

O nome dela?

Desejo.

Ela pegou minha mão em uma noite escura de lua minguante. E afagou meus cabelos com sua mão pequena e fria. E me disse que o caminho era escuro, mas falou isso enquanto cantava.
Ela desviou todos os espelhos do caminho.
E pulou com força em todas as poças.
Ela seguiu em frente, sempre em linha reta como um gato.
Com os olhos amarelos e parados.Como um gato também... Um pequeno sorriso, e o cabelo tão despenteado que parecia de propósito.
Cada vez que eu me concentrava, ela tinha um aroma diferente.
E era tão rápida, que mesmo quando andava parecia correr.
E eu, tão verdadeiramente sedentária, parava de ofegar só porque ela não deixou de cantar um só segundo.
Em linha reta.
Até que parou.
Era um precipício.
Ela apontou o braço gordinho para frente.
Olhou para mim.
E sorriu, tão de leve. Era quase como ver uma pluma.
Ficou séria, e continuava apontando.
Eu não vou dizer que não exitei. Mas parecia tão certo...
Tomei um impulso e pulei.
Ouvi a gargalhada na minha mente.

" Te vejo lá embaixo"!
"não pare de voar, senão não tem graça!"

Talvez ela tenha me dado asas que virem chumbo. Mas por enquanto, eu não quero saber.

versinho

É e não é...

Caminhos, emaranhados

Mentira, diriam.

Ah, deixe...

Deixem – me todas as coincidências

Desgrudem todas as expectativas

Peguei nova folha e novo giz

Para velhos jeitos

Mas para jeitos reinventados

Não há não

Não há nunca

Mas, no fundo nada há.

Quem...

Alma romântica (no sentido literário da palavra) simbolista por escolha, sarcástica por natureza, mal humorada crônica e autista por opção. Basicamente uma mala! Mas pelo menos sou sincera...ou tento.