Parado, quase estático.
A penumbra e o barulho do bar fariam com que passassem despercebidos.
Ali, aonde todos iam para conversar.
Para beber.
Para esconder sua solidão com muito cuidado.
Para jogar-se, de um lado para outro, tentando eliminá-la.
Ali, onde a solidão parecia quase uma intrusa, pois era um bar onde se via, onde se ria, onde se era visto.
Pois era justamente ali, que a solidão dele era quase um troféu.
A fumaça do ambiente rodopiava em torno dele. Era quase uma aura, uma mágica.
Ele não fumava.
Afinal, seria uma quebra na solidão, não seria?
Mas ela ia, atraída para lá, da mesma maneira. Era quase uma homenagem... Estou aqui, olhe para mim, olhe para mim...
Pois é, eu não disse.
Os olhos eram parados. Fitavam um horizonte longínquo e secreto
Fitavam, sem ver.
Os lábios, um risco. Nem felizes, nem tristes. Ali. Apenas. Havia mais?
Os braços descansavam na mesa.
Um único copo ia e vinha, com cadência, como uma máquina.
Era tão orgulhoso em sua solidão, que o burburinho parecia não lhe atingir.
Parecia nem estar lá.
Devia estar ouvindo uma espécie de bolero dentro de si.
Muito provavelmente via o que não podia ser visto.
Nem a fumaça, que me faria chorar, conseguia atingi-lo.
Silencioso, ele partiu. Talvez perseguindo o que via. Mas, possivelmente, o que perseguia já estava com ele. Gosto de pensar assim.
Quando ele se foi, fiquei a pensar que a solidão era muito mais de todos os outros do que do estranho. Ele era o único a não fugir, envergonhar-se, nem ao menos ignorar sua existência.
Este vem direto de um guardanapo, no bar.... :)

