Segunda-feira, Junho 02, 2008
Sobre o Chico...

Que Chico, oras? Aquele, o filho do Sérgio!
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Lembro como se fosse hoje, que quando o meu irmão nasceu, eu entrei, solene e animada, no hospital. Era pequenininho e tinha muito cabelo preto. Os olhos fechados, e a cara vermelha. Minha mãe disse: olha, seu irmãozinho... Que nome você prefere? Felipe ou Francisco?E eu, na sabedoria dos 5 anos pensei q não daria ao meu irmão, meu, só meu, o nome de um vilão de novela (nem lembro a qual).Francisco, foi o que respondi.

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O Chico é quase uma unanimidade. Perfeito. O Johnny Deep tupiniquim. O homem que toda mulher queria para si. O que traduziu a alma feminina como ninguém... etc, etc. Clichê ou não, lembro que uma vez, eu devia ter uns 12 anos, ouvi minha mãe falar do Chico: “Virou cantor, porque compositor ganha pouco no Brasil, mas a voz não é tão boa quanto as letras, ele é um dos melhores letristas do país, veja só”. Acho q ela queria ensinar para a gente que nem sempre se valorizam as idéias. Mas elas devem ser vistas. Não lembro, mas era um tipo de papo comum lá em casa.
De qualquer jeito, eu amava o Caetano, desde sempre. (ta, mentira, eu passei pelo amor do Milton e do Ney primeiro) Mas era o Caetano que era baiano, que tinha a voz mais bonita, que gravou Vampiro, e Elegia, e... Enfim...
Por muito tempo, o Chico era um conhecido respeitado para mim, nada além disso. Ah, ele canta, tem músicas lindíssimas... Definitivamente, admirável, mas não apaixonante.

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Quando a gente resolveu que aquele menino ia se chamar Francisco, minha mãe preocupou-se: filho meu não pode ser chamado de Chico, é um apelido feio. Kiko, resolvemos, e ele ganhou um nome e um apelido, quase no mesmo dia.
Amado Kiko. Todo mundo sabe que o maior presente que eu recebi foi o meu irmão. O adoro, assim, por que ele existe, por que ele é. Ponto. E acho Francisco um nome verdadeiramente lindo, daria a um filho, se não tivesse um irmão com esse nome. Afinal, trata-se de um revolucionário. (outro Chico, o de Assis.)
É engraçado isso... nomear um filho, como uma grande homenagem, no fim, todos buscamos um tantinho de eternidade. Filhos de Cronos, a procurar uma antropofagia reversa? =D (só eu gosto dessa analogia)

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E eu lembro quando o outro Chico foi realmente meu. Assim, uma estorinha estranha, onde eu tinha q escolher um cd, Chico duplo ou Gal, e apesar de ter passado dos 3 aos 12 chamando a Gal de rainha e sacudindo os cabelos para ser como ela (ou a Clara Nunes, porque eu era, como todas as crianças, uma infanta cheia de sonhos) eu disse: Chico. Chico ao vivo – 1999.
Ouvi os dois, no mesmo dia. E disse: O meu é mais bonito. Meu pai concordou, e eu lembro porque virou mais um capítulo de uma doída disputa. Na verdade, ouvi muito mais o Cd 2. Estranhamente, era o acalanto. Uma cantiguinha da alma. Sabe? Quem foi criança q ouvia os pais cantarem antes de dormir, entende. As musiquetas consolam um tremor pequeno, que a gente não sabe por que tem. Ouvir o Chico era como um afago em uma parte do tremor, que nunca cessou.
Como explicar o que a gente sente? O fato é que bancarrota blues, ou as vitrines, futuros amantes, Iracema voou – eu cantava tanto essa... São do tipo de música que passa direto... Eu não conseguia pensar direito sobre elas. Apenas acumular sensações, como o mestre Caeiro se orgulharia.

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E no fim, quase todos os meus irmãos têm nomes a quem eu daria a continuidade. De sangue, de lágrimas, de obrigação, mesmo, só tenho aquele que não podia ser Chico de nenhuma maneira, mas costumo chamar de irmãos aqueles amigos que são amados, por mim, quase da mesma maneira. E já daria ao Fernando posteridade, por outro amor que é o Pessoa, como se sabe. Da mesma forma, que Ramon figurou na lista de “nomes para filhos”, pois era o mais próximo de Damon que eu conseguiria. – Mania, insana, de perpetuar personagens. E agora, tem pessoas que eu admiro com cada um desses nomes, que vieram depois, mas não aleatoriamente. E tem o Rafael, que fecha a tríade, mas... Sinto, rafinha, não batizaria um filho com seu nome. Anjos não combinam com anarquistas em potencial, ou combinam?

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Eu queria ser uma “mulher do Chico”, em sentido amplo. Alguém que tivesse um “vigia...Catando a poesia...Que entornas no chão” Alguém para ser chamada de afoita, em seu tom de voz. Alguém em que eu pudesse derramar na camisa, todas as flores de abril. Daí-me flores, pediria Pessoa, por sinal. Mas ao contrário do que se pensa, não falo de novo do sentido restrito... Não se trata de falar de solidão de maneira sutil. Mas, ao contrário, da ausência de egoísmo. Pois as mulheres do Chico, parecem-me viver as sensações, todas, que são os sentimentos. Como queria Caeiro. No domínio que mistura impensável e poesia, da mesma forma.

“Essa é a tua música
É tua respiração...”
“Olhando meu navio/ O impaciente capataz/ Grita da ribanceira/ Que navega pra trás No convés, eu vou sombrio / Cabeleira de rapaz/ Pela água do rio/Que é sem fim
E é nunca mais...”

As angústias cantadas do Chico saram, um pouco, aquela dor que eu não sei de onde vem. Sensação que rebate sensação.
E quem entende, normalmente, eu chamo de irmão.
Presentes, da mesma forma daquele que não podia ser Chico.
De maneira nenhuma.

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J. escreveu às 00:30:00 | Permalink |


1coments:


  • At 09/06/08 17:26, Blogger Ramonroll

    Quando os dias passavam e o blog permanecia estático, eu imaginava algo muito bem elaborado. Muito bem escrito.
    Pois aqui estamos. Algo muito bem elaborado e escrito, mas o que mais me surpreende é a emoção que vc transmite. O sentimento sincero. Enquanto Chicos, Fernandos, Damon, Ramon, Rafael e outros mais vão construindo quadros desse almanque, só posso dizer que melhor que ler o que você escreve é viver, de fato, o que foi descrito, sabendo que muito mais há de ser elaborado.







    Aqui é o Ramon!