Fuga # 3333542394

Ele me encarou por muito tempo
Muito tempo mesmo
Eu nem olhei
Estava muito interessada na parede, ou o que quer que fosse.
Deveras... O que quer que fosse era muito importante.
Não quer dizer que eu não ouvisse, ou mesmo não soubesse
Mas, de verdade, eu escuto pouquíssimo.
Era de uma decisão inabalável.
Não importava. Passou-se uma vida inteira, e mais uma
(ou talvez uns 100 minutos)
Passaram-se gerações completas.
Uma parte de mim, uma partícula realmente pequena, estava feliz de uma forma ridículamente precisa. A parte que ficou ali, onde nada mais estava
E o guardião cego rompeu o silêncio.
-Não vai falar comigo?
Eu estava muito longe. Muito mais longe do que o possível. Ele nem escutaria. Eu não respondi.
- Não vai nem mesmo me ouvir?
Os meus ouvidos estavam tomados e surdos pelo sussuro do vento. Mas eu tentei num esforço... um daqueles tão gigantescos que parecem inúteis e despropositados...
-Eu não estou aqui. Eu estou na praia de luzes amarelas e muros quebrados.
Ele me contou, muito tempo depois que nada em mim se mexeu. Sem piscar.
Mas ele nunca respondeu a pergunta que eu fiz, depois.
-Nem que se passassem um milhão de anos.
Nada, nada mesmo em mim, queria sair dali.
Restou muito silêncio. Passou-se, verdadeiramente, uma vida inteira e mais uma.
Ou talvez, uns 10 minutos.
A cega era eu, cega pela lua. Pelas luzes amarelas, o mar negro.
Eu queria, mesmo muito, ficar ali para sempre
Uma parte assustadoramente grande.
Era quase um sussuro, um muxoxo. Espetacularmente claro.
-Sua praia nem existe.
Mas naquele dia, tudo tinha gosto de sal
úmido.
Pateticamente constante.
Como os versos da canção
"Um flit paralisante qualquer"
Como a imensidão. Do mar, que nunca se alcança.
Eu nunca poderei afirmar com certeza
Se uma parte de mim voltou completamente. Uma parte insignificantemente minúscula.
Talvez more para sempre lá, como o fio de ariadne.
O único que voltou foi o guardião cego.
Foi quando eu ganhei um cubo de gelo.

Lembrando o peter pan

A garota perdida olhava no espelho
Olhos parados como uma presa de si mesmo
Encurralados, como só os marcados podem ser
Ergueu a mão e ela tremia
Tudo ao seu redor era como areia
Ela não tocou
Sabia que uma simples brisa desfaria tudo, em pó
Como aquela eterna maldição bíblica, do Deus hermético.
Não aquele que dava colo ao redor das fogueiras
Ou que limpava suas lágrimas com sopros, arrepios...
Não aquele dos segredos que não eram contados para ninguém, nunca. Aquele que ela guardava para si como o maior e mais completo tesouro, pelo incompleto, pelo mistério. E por, como tudo que realmente importa, não haver palavras para descrever.
É claro, se a garota perdida fosse sincera, mesmo, sem titubear, ela reconheceria que não havia ninguém em sua porta pedindo pelo segredo. E isso também era o que fazia dele um tesouro tão bem guardado.
Não se precisa cuidar muito do que não importa a ninguém, só a gente mesmo.
Mas, como muitas coisas, a garota perdida não pensava tão fundo assim, já queseria como se afogar em um lago fundo e gelado.Aqueles, de alma. E eles não refletem coisa alguma.
Hoje, ela olhava no espelho, para o reflexo da maldição do pó.
A ira, por existir errado, desde o começo, que ela ganhara na infância.De tantas e completas maneiras, o Deus hermético olhava de volta no espelho e dizia que ia voltar ao pó. E o medo lhe disse que não haveriam desertos, nem retornos, nem paz, nem casa, nada mesmo haveria.
Será que faria mesmo diferença? Ela pensou com sarcasmo.
Olhou ao redor. Presentes empilhados. Ela nunca usara nenhum.
-São pesados demais. O hoje que não pude carregar.
Eram milhares, na verdade.
Uma grande caixa, ainda não cinza e igual as outras esperava.Era a única que poderia ainda abrir
"Um presente de cada vez, é a regra do mundo".
Não se pode fugir do mundo.
Quem sou eu, ela escreveu em rubras letras no espelho. Grandes e desesperadas.
Mas não havia resposta.
Ela precisava saber, encontrar, buscar e cavar.
Ainda não sabia como...
Ainda não sabia possível
Ainda nada sabia.

visita


Era como se ele estendesse o lápis e quisesse furar meus olhos. Ok, não era não, mas esse começo fica mais dramático. Havia uma urgência palpável, quase como eletricidade no ar.
-Escreve...
E a verdade é que o texto estava borbulhando aqui dentro, então... Escrevi, para não sentir arranhar.
E eu sabia da sua presença, na irritante posição por cima dos ombros.
Mas não somos de falar, sabe? E eu escuto muito pouco.
-É tão bobo...
E ele lá, impassível como peça de xadrez. Eu comecei, como redação de colégio, aquelas, que fazemos aos onze anos.


Se eu pudesse escolher... assim mesmo, como reticências...
Ia ser menina e velhinha, destarte, como um estranho ser mutante e mutável. Menina, para fazer qualquer coisa – qualquer mesmo – por um punhado de cerejas. Assim, com os grandes olhos de jabuticaba arregalados, a mastigar como quem conhece o segredo do tesouro de piratas – o baú das cerejas. E velhinha, para oferecer sorrindo cerejas para quem quer que possa precisar delas.
Menina, assim, inocente e sem paz. A subir em toda e qualquer inclinação que meus olhos possam ver, ou correr desabalada em qualquer descida ou rampa. Correr só não. Correr, gargalhando, de olhos fechados e braços abertos.
Imitar abelhas, zunindo. Subir em limoeiros com os bolsos cheios de sal. Acertar todos os meninos com sementes.
Velhinha, como um símbolo da calma, a sorrir condescendente a qualquer arte.
A explicar o motivo dos tombos. A carregar a sabedoria romântica dos que sabem fazer muitas coisas e nada precisam que não sejam suas mãos. Mãos doídas, da idade, é certo. Mas com paciência suficiente para ensinar e aceitar toda imperfeição das mãos pequenas.
Sentaria em uma espécie de colo de mim mesmo. Ouviria lendas, todas. De uma civilização que não existe mais. E embasbacada olharia as mãos de papel que tudo sabem.
E ele viria também, junto, a ensinar a imitar passarinhos, a tocar instrumentos, a fazer careta e assustar quando precisasse de silêncio. Fazendo um SHHHHHHHHH tão assustador quanto as cobras. E com cócegas poderosas de arrancar qualquer segredo. Ah, ela conseguiria também, mas com um colo macio e seu olhar de lago.
E eu verdadeiramente em tudo e todos,  a dividir as duas pontas.
E todos os segredos e risos, em um dia só, mas verdadeiramente longo. A maravilhar-se com tudo pela primeira vez. A reviver as maravilhas no olhar arregalado e inocente, lembrando com sabedoria de tudo que foi. Como um segundo eterno.
Ao fim do dia, um corpo crescido e fatigado descobria o segredo final. Pela primeira vez não quereria ser tudo, apenas a parte que cabe, antes do todo.
E no escuro, o silêncio irreal do êxtase a permitir ver brilhar a ponta dos dedos, na verdadeira mágica. Aquela que preenche os espaços do corpo imperfeito. Constrói pontes momentâneas, tremulando célula por célula.
A vida terminaria em explosão.
Mais perfeita que um acalanto.



-Terminei, disse com incerteza.
- Finalmente me escutas, mas mesmo assim não disse tudo...
Nem tive tempo de me justificar. Ele continuou.
-Eu entendo... Há uma espécie de satisfação em não cumprir o que se pede. O dia chegará.
Sempre me deixava tonta como que amaldiçoada.
Mas antes, dobrou o papel com cuidado. Disse que ele pertencia a um lugar.
-Qual? Eu perguntei.
-Você sabes, só não escreves. Não importa, já tem sua cura.
O guardião cego sempre partia em confusão.

O anjo que desceu ao inferno - parte 1

E aos festins dos demônios, assistiu.
Era um anjo, todo luz. Andava, em beatitude, pelos céus - como quer que o leitor imagine os céus - com pequeninos passos, olhos como estrelas e risada, o sorrir dos inocentes. O coração do anjo cantava.
Um dia, curioso, viu um demônio carrancudo.
O anjo, como criança, resolveu ir até lá
E o inefável bateu suas asas sobre o anjo...
Curiosidade, diriam.
O anjo desceu ao inferno. O demonio alimentava uma parte de si, que ele não sabia que existia.

eu queria ter escrito isso.

Link

mas pelo menos, eu conheço o blog. Vão lá!

indagação

medo, por todos os lados
talvez eu seja a ilha.

algo tão importante, libertador e dolorido


que não há palavra
nenhuma.

Quem...

Alma romântica (no sentido literário da palavra) simbolista por escolha, sarcástica por natureza, mal humorada crônica e autista por opção. Basicamente uma mala! Mas pelo menos sou sincera...ou tento.