visita


Era como se ele estendesse o lápis e quisesse furar meus olhos. Ok, não era não, mas esse começo fica mais dramático. Havia uma urgência palpável, quase como eletricidade no ar.
-Escreve...
E a verdade é que o texto estava borbulhando aqui dentro, então... Escrevi, para não sentir arranhar.
E eu sabia da sua presença, na irritante posição por cima dos ombros.
Mas não somos de falar, sabe? E eu escuto muito pouco.
-É tão bobo...
E ele lá, impassível como peça de xadrez. Eu comecei, como redação de colégio, aquelas, que fazemos aos onze anos.


Se eu pudesse escolher... assim mesmo, como reticências...
Ia ser menina e velhinha, destarte, como um estranho ser mutante e mutável. Menina, para fazer qualquer coisa – qualquer mesmo – por um punhado de cerejas. Assim, com os grandes olhos de jabuticaba arregalados, a mastigar como quem conhece o segredo do tesouro de piratas – o baú das cerejas. E velhinha, para oferecer sorrindo cerejas para quem quer que possa precisar delas.
Menina, assim, inocente e sem paz. A subir em toda e qualquer inclinação que meus olhos possam ver, ou correr desabalada em qualquer descida ou rampa. Correr só não. Correr, gargalhando, de olhos fechados e braços abertos.
Imitar abelhas, zunindo. Subir em limoeiros com os bolsos cheios de sal. Acertar todos os meninos com sementes.
Velhinha, como um símbolo da calma, a sorrir condescendente a qualquer arte.
A explicar o motivo dos tombos. A carregar a sabedoria romântica dos que sabem fazer muitas coisas e nada precisam que não sejam suas mãos. Mãos doídas, da idade, é certo. Mas com paciência suficiente para ensinar e aceitar toda imperfeição das mãos pequenas.
Sentaria em uma espécie de colo de mim mesmo. Ouviria lendas, todas. De uma civilização que não existe mais. E embasbacada olharia as mãos de papel que tudo sabem.
E ele viria também, junto, a ensinar a imitar passarinhos, a tocar instrumentos, a fazer careta e assustar quando precisasse de silêncio. Fazendo um SHHHHHHHHH tão assustador quanto as cobras. E com cócegas poderosas de arrancar qualquer segredo. Ah, ela conseguiria também, mas com um colo macio e seu olhar de lago.
E eu verdadeiramente em tudo e todos,  a dividir as duas pontas.
E todos os segredos e risos, em um dia só, mas verdadeiramente longo. A maravilhar-se com tudo pela primeira vez. A reviver as maravilhas no olhar arregalado e inocente, lembrando com sabedoria de tudo que foi. Como um segundo eterno.
Ao fim do dia, um corpo crescido e fatigado descobria o segredo final. Pela primeira vez não quereria ser tudo, apenas a parte que cabe, antes do todo.
E no escuro, o silêncio irreal do êxtase a permitir ver brilhar a ponta dos dedos, na verdadeira mágica. Aquela que preenche os espaços do corpo imperfeito. Constrói pontes momentâneas, tremulando célula por célula.
A vida terminaria em explosão.
Mais perfeita que um acalanto.



-Terminei, disse com incerteza.
- Finalmente me escutas, mas mesmo assim não disse tudo...
Nem tive tempo de me justificar. Ele continuou.
-Eu entendo... Há uma espécie de satisfação em não cumprir o que se pede. O dia chegará.
Sempre me deixava tonta como que amaldiçoada.
Mas antes, dobrou o papel com cuidado. Disse que ele pertencia a um lugar.
-Qual? Eu perguntei.
-Você sabes, só não escreves. Não importa, já tem sua cura.
O guardião cego sempre partia em confusão.

O anjo que desceu ao inferno - parte 1

E aos festins dos demônios, assistiu.
Era um anjo, todo luz. Andava, em beatitude, pelos céus - como quer que o leitor imagine os céus - com pequeninos passos, olhos como estrelas e risada, o sorrir dos inocentes. O coração do anjo cantava.
Um dia, curioso, viu um demônio carrancudo.
O anjo, como criança, resolveu ir até lá
E o inefável bateu suas asas sobre o anjo...
Curiosidade, diriam.
O anjo desceu ao inferno. O demonio alimentava uma parte de si, que ele não sabia que existia.

eu queria ter escrito isso.

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mas pelo menos, eu conheço o blog. Vão lá!

indagação

medo, por todos os lados
talvez eu seja a ilha.

algo tão importante, libertador e dolorido


que não há palavra
nenhuma.

aforisma III

Escreves, destila venenos. Alguns textos retornam como maldição. Para sempre.

Canções de Bardo Darkovanas II


(para serem cantadas ao redor da fogueira)


Escutem, escutem
Grita o vendo arredio
Em meio ao campo de batalha
Vazio, estéril, sem fim


A urgência tinge de púrpura
O desespero do céu
E deserto permanece
A batalha – apenas passos do caos


Desordem, em todo lugar
Espelho, caco, insolúvel
Escute, escute
Sussurra o vento


Não há vencidos na batalha interna
Apenas o desespero púrpura
E mesmo se prestar atenção
Mesmo se ouvir, concentrado


Jamais saberá de onde vem
A desesperança arredia
Da batalha
Aquela, de um único indivíduo


Escute, escute... o vento sussurra em salvação
Como se houvesse sentido
Ás escolhas e caminhos.
Mas só faz voar os sonhos
Irrefletidos e irreais...
Em torno de moucos ouvidos


O campo de batalha
É interno
Estéril
silente

Quem...

Alma romântica (no sentido literário da palavra) simbolista por escolha, sarcástica por natureza, mal humorada crônica e autista por opção. Basicamente uma mala! Mas pelo menos sou sincera...ou tento.